Mostrando a Amazônia para os japoneses

A presidente da Amazon Rainforest Foundation Japan (RFJ), Kenko Minami, está no Brasil para divulgar o evento Message from Amazon (Mostra de Multimídia de Cultura Indígena Brasileira), que acontecerá em Hiroshima e Tóquio, no Japão, em maio de 2007. Esse evento é uma das atividades realizadas pela RFJ e a presidente da FRJ faz visitas periódicas de inspeção aos projetos executados pela organização não-governamental Ameríndia Produção e Difusão de Cultura Indígena, representante da RFJ no Brasil.

Um dos projetos é construção do Núcleo de Educação e Preservação da Cultura Bebko-roróti, na aldeia Piaraçu, em Mato Grosso, próxima ao Parque Nacional do Xingu. Na entrevista, Minami falou sobre o evento e as atividades da RFJ.

Kenko Minani nasceu em Tóquio há 58 anos, e estudou em uma universidade só para mulheres – a Universidade Jyoshibi – onde se formou em Artes Plásticas, dedicando-se à pintura a óleo. Ao longo de sua vida profissional trabalhou como ilustradora, cenógrafa para programas infantis de TV, produziu espetáculos musicais e eventos de moda. É casada com um músico e tem um filho. Embora a RFJ já colaborasse com projetos sociais em áreas indígenas do Brasil desde 1989, seu interesse pela cultura cresceu a partir de 1992, quando ela esteve no Brasil participando da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92).

Kenko Minami: “ Temos responsabilidade na proteção da floresta amazônica”

Qual é a importância do evento Message from Amazon na relação entre o Japão e o Brasil?

Durante reunião com o Adido Cultural da embaixada do Japão, Masahiko Kobayashi, sexta-feira, recebemos total apoio à realização da exposição Message from Amazon. Houve uma feliz coincidência, porque em 2008 será comemorado o Centenário da Migração Japonesa para o Brasil. E nossa exposição, em 2007, será um pré-evento do Centenário. Ele lembrou que, antes de tudo, aqui só havia os índios e essa é uma boa oportunidade de mostrar a cultura indígena brasileira, falar desse assunto para o povo japonês. A Embaixada do Japão se comprometeu a colaborar com os trâmites burocráticos, já que há o interesse dos dois países, e muitas providências passam pelo Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores, do Brasil, como a liberação de peças, autorizações para envio das peças. Acredito que isso é uma oficialização do evento, entre os dois países.

Como esse evento fortalece e amplia o intercâmbio entre os dois países?

A primeira exposição (menor que a montada em Tóquio) será em Hiroshima, no Aster Plaza. Em seguida, levaremos a exposição para o espaço Taro Okamoto Music Art, onde ficará entre 30 a 60 dias, Por coincidência, na próxima semana, em Brasília, será aberta a exposição Hiroshima, Mensagem para a Paz, que mostra desenhos e reproduções feitas por sobreviventes da explosão da bomba atômica nessa cidade. É a primeira vez que esse material exposto no Museu da Bomba Atômica de Hiroshima, é mostrado em outro país. O trabalho que a RFJ desenvolve desde 1989, enviando recursos para o Brasil, cresceu a partir da Rio-92. O interesse sobre o Brasil aumentou e comecei a receber convites para palestras, simpósios e pequenas exposições, em universidades, sobre a cultura dos índios brasileiros. Sempre explico que o povo japonês precisa tomar consciência dos estragos que são feitos no Brasil. Os japoneses comem produtos feitos de soja, mas o Japão produz apenas 3% da soja que consome, os outros 97% são importados do Brasil e de outros países, mas principalmente do Brasil. A lata do refrigerante que tomamos vem do alumínio do Brasil. O Japão compra porque tem dinheiro e sempre explico que tudo isso que consumimos causa a destruição das florestas.

Quanto custa organizar um evento como a Message From Amzon ?

O custo de todo o trabalho realizado no Brasil para produção do evento - que inclui o transporte das peças, além de passagens e hospedagem, está em cerca de R$ 1,5 milhão, captado entre empresas japonesas, por meio da Lei Rouanet (Lei do Incentivo Fiscal). A Toyota, Panasonic e Arista Science Life, empresas japonesas que atuam no Brasil, já patrocinaram a RFJ em projetos culturais anteriores e confirmaram o apoio ao evento. Estamos buscando apoios de outras empresas. Do Brasil, além do diretor da Ameríndia, Paulo Pinagé de Lima, irão três lideranças indígenas - Raoni Metyktire, Megarom Txucarramãe e Yobal Txucarramãe - representando os índios do Parque Indígena do Xingu e os Kayapó da região. Mas pode ser que outros indígenas também estejam no Japão durante as exposições. Para montar os eventos, trabalhamos com voluntários. Em Hiroshima serão cerca de 50 pessoas e em Tóquio dez voluntários que trabalham na RFJ. O Museu cederá seus funcionários para montagem da exposição (iluminação, cenários e outros trabalhos de infra-estrutura). Queremos apresentar a exposição em cidades da Amazônia, como Manaus e Belém, que possuem grandes espaços para eventos desse tipo.

Qual é o tema predominante das peças que serão mostradas no Japão ?

São cerca de 300 artesanatos, como utilitários domésticos (cerâmicas), instrumentos de caça e guerra (bordunas e arcos), instrumentos musicais, que estarão organizados em módulos. Na entrada, será construída uma réplica da Casa dos Homens (como as das aldeias do Xingu), que nas festas e rituais transformam-se em casas das máscaras. Na réplica, folhas e galhos serão espalhados pelo chão, para que as pessoas pisem e tenham a sensação de caminhar pela floresta. Também haverá aromas e sons da floresta. No teto, estarão suspensas máscaras estrategicamente iluminadas. O objetivo é que o público interaja com o ambiente, tanto no plano material quanto espiritual. Após esse espaço, as peças serão organizadas em forma de um enredo de acordo com lendas e mitos indígenas. Também haverá mostras de filmes históricos, e documentários produzidos pela RFJ - Mehináku e Kayapó – e imagens gravadas pelos próprios índios, durante suas festas e rituais. Completa o evento o lançamento do livro sobre a cultura kayapó, editado em português e japonês. Três universidades de Hiroshima querem que haja palestras e seminários sobre o tema e, em Tóquio, muitas universidades estão interessadas no assunto.

Como funciona a Amazon Rainforest Foundation Japan (RFJ )?

Realizamos um trabalho constante no Japão para buscar recursos para apoiar todos os projetos sociais para os indígenas nas áreas de educação, saúde e vigilância de suas terras. A RFJ tem um quadro de mais de 1.700 associados, que contribuem de acordo com as possibilidades de cada um, com valores que vão de um a cem dólares mensais. De vez em quando surge um doador de valor mais alto. Esse evento pode trazer novos associados, mas quero plantar uma semente dentro de cada um, conscientizando as pessoas sobre o conforto desfrutado com a soja, o ferro e o alumínio extraído do meio ambiente. Mostrar que todos temos responsabilidade na proteção da floresta amazônica. E evento é importante, mas o que vai acontecer após o evento também é muito importante: queremos que o povo japonês se conscientize, e também trazer novos associados para a FRJ. Acredito que plantando essa semente, um dia, o povo japonês terá uma grande árvore dentro de cada um, aprendendo a viver e respeitar esse planeta. Não quero ver as próximas gerações usarem tanques de oxigênio para respirar e isso pode ser evitado se cada um de nós cuidar um pouco dos recursos naturais que existem hoje.


Reportagem na Revista IstoÉ - Contando a história do grande cacique Megaron e do evento "Messege From Amazon"

 

Matérias nos principais jornais japoneses sobre a exposição "Messege From Amazon"

 

Matérias nas principais revistas japonesas sobre a exposição "Messege From Amazon"

 

Momentos do cacique Raoni após a abetura do evento "Messege From Amazon" - visita aos principais templos japoneses

 

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